Tendo a ser poupado nas palavras, mais por não ter nada de particularmente interessante para dizer do que por razões metafísicas. Nem sempre foi assim. Já tive mais para dizer, já me senti menos burro. Adiante. De qualquer maneira, este post ficará aqui por pouco tempo.
Para quem vem ao blog com alguma regularidade, imagino que esteja a ser flagrante o silêncio, não só de palavras, mas também de imagens e de música e de todas as outras coisas que, regra geral, me entusiasmam. «Entusiasmo» que, aprendi há pouco tempo ao ler o Mythos, do Stephen Fry (aconselho), vem do grego e quer dizer «ser possuído por uma divindade». Já me sabia ateu, não imaginava era que ficaria tanto tempo sem qualquer ligação ao divino.
Começou no final do ano passado: uma sensação crescente de não querer estar com ninguém, de me ser penoso fazer conversa, de não me fascinarem as histórias alheias (o que cria o reflexo automático de achar que as minhas também não interessam a ninguém). Veio o confinamento, o que só aliviou e agravou a situação: por lei estar impedido de conviver com outros seres humanos (que não os catraios), tirando-me a obrigação de inventar desculpas e não me obrigando a contrariar este progressivo isolamento. Neste momento, mal oiço música, fotografo apenas por rotina e necessidade de trabalho na editora, acho até que perdi a agilidade mental para a boa disposição, a invenção de trocadilhos idiotas e piadas secas. Estou, isso sim, uma valente seca. Limito-me a sair para o trabalho e a voltar ao final do dia. Estou, creio, a precisar de férias. A precisar de estar de novo com os putos (estão de férias com as mães há séculos) — porque, e é um bocado chunga admiti-lo, retiro deles uma boa dose de energia positiva e descomplicada. E tenho saudades de os ter por perto e de me sentir a desempenhar um papel. Assim, neste momento, estou reduzido a ser o fotógrafo assim-assim, o amigo-que-enfim-nem-responde-às-mensagens-e-tem-o-telefone-constantemente-no-silêncio-e-as-notificações-desligadas, o designer que faz coisas do calibre de quem-quer-saber-desta-merda, o ser humano nem-frigorífico-nem-radiador.
Preciso, portanto, de férias. E, de certeza, de reencontrar o prazer de estar com outras pessoas. Vem aí a Feira do Livro e não vou ter outro remédio que não o de falar com 500 pessoas diferentes todos os dias. Pode ser que desbloqueie, que volte a acordar com pica para o dia que começa.
Entretanto, e a todos/as que aqui passam, peço desculpa pela ausência (do blog, das suas vidas). Pode ser que a crise existencial da meia-idade passe depressa, eu me deixe de merdas e volte a sentir entusiasmo por coisas que queira partilhar.
Obrigado.
