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10/10/2018

Aquilo das redes sociais cada vez me faz menos sentido: nunca gostei de multidões, e menos ainda de multidões aos gritos. Não que estejamos, neste momento, sem razões para gritos — mas não vejo nada de benéfico nisso: estamos todos onde eles [«eles»…] querem que estejamos: agarradinhos aos ecrãs, com a suave ilusão de que somos muitos, qualquer que seja o lado da barricada. Chateiam-me os comportamentos miméticos, por exemplo, o ver reproduzido vezes sem conta, como se de uma afirmação se tratasse, aquele poema do Brecht. Ou aquele cartoon. Ou o repisar das mesmas piadas (ena, até o continente já se aproveitou daquilo do Banksy). Portanto, para mim, o facebook foi c'o caralho.

O próximo, em breve, será o insta (tenho as minhas razões para não apagar tudo de uma vez), onde as imagens, os efeitos, o discurso visual, são cada vez mais iguais iguais claustrofobicamente iguais (e na maior parte desinteressantes). Paralisa-me constatar que já tudo foi fotografado, e de todas as maneiras possíveis — apesar de, obviamente, não ser verdade.

Fico com este meu gabinete de curiosidades para ir redecorando à minha vontade. E voltar a uma vida mais analógica, digamos: comprar mais o jornal em papel, afastar-me das grandes praças onde todos gritam e processar o mundo a um volume e um ritmo mais meus.

(isso e estou quase a fazer anos, o que me provoca sempre uns acessos de mau-feitio e desalento — não por estar a envelhecer, estou-me a marimbar para isso da idade e da morte, mas por causa daquela semi-obrigação de ser um dia fixe, e contam-se pelos dedos de uma mão de um operário [daqueles que trabalham com guilhotinas] os dias de aniversário prazerosos que tive nos últimos 20 anos)



13/09/2018

Ao fim de
(quase) 40 anos
(entretanto voltei a fumar)

— razões para o frenesi que para aqui vai neste blog —

Tirei finalmente a carta. Uma carta. Ainda não é de carro — nunca gostei de andar de carro ou de carros: em puto gregoriava-me todo sempre que o meu pai estreava um carro novo (e foram muitas vezes). Há algo de psicoiso, nisto, claro: nada era mais importante, para o meu pai, que a merda dos carros. Por outro lado, tinha um avô — o avô fixe — que nunca teve carta ou carro e, no entanto, ia a todo o lado.
Dizia: tenho carta de mota. Depois de algum tempo a conduzir uma sem carta nem seguro (sim, sim, eu sei), estou finalmente legal e, digo-vos, cheio de vontade de me fazer à estrada. No capacete, uma daquelas mariquices que permitem falar com o pendura e, obalalá, ouvir música. Explicação n.º 1, assim, para andar para aqui a preparar bandas sonoras para horas de asfalto.

N.º 2: gostaria mesmo mesmo muito de ter um programa de rádio. Fiz rádio — se é que rádio se podia chamar àquele sistema de som que emitia para a cantina — na faculdade e.
E, não sei.
Gosto desta coisa de alinhavar músicas e de as mostrar. À falta de ondas hertzianas, ficam os 1s e 0s neste canto perdido da internet (mas, nota de rodapé: se alguma vez precisarem de alguém para um programa de rádio, avisem-me)

Explicação n.º 3: talvez uma vida social um bocado limitada?

(4) Ao fim de, continuo a ter músculos no corpo que se comportam adolescente-deslumbrado-entusiasticamente. E uma aptidão para água gelada. Em baldes. Daqueles grandes. Por culpa minha. Estar entretido com estas e outras coisas — ocupar as mãos com pincéis ou fotografias — é a toalha com que me seco, enquanto me resmungo um nuncamais.

(pelo caminho, se não conhecerem, oiçam o melhor programa da rádio nacional: Fuga da Arte, do Ricardo Saló)


  

20/08/2018

Ao fim de
(quase) 40 anos
(quase) duas semanas sem fumar
muitos meses de coração mais seco que um tronco deitado no deserto
alguns banhos de mimo vindos das gerações serpianas mais novas
(não parece, mas está tudo interligado)

peguei no sapato e de lá retirei aquela pedra pontiaguda que me andava a incomodar há demasiado tempo, a saber: achava que só conseguia criar, i.e., fazer coisas com as mãos, por impulso amoroso. Trocado por miúdo(a)s, só conseguia criar com o objectivo, meio-galaró e não assumido, de impressionar alguém.
Em conversa ontem com a Catarina (que é das pessoas mais sábias que conheço), ela dizia-me que isso não é forçosamente mau — mas discordo: parece-me uma razão muito comezinha para fazer o quer que seja. Ou para ser a única razão por detrás de um gesto.

Ao fim de …, portanto, percebo que não, há aqui algo mais, uma espécie de auto-suficiência e de prazer no gesto criativo, no gesto rabiscador, que é independente dos sentimentos.
Há, também, algum prazer em fazê-lo desavergonhadamente e humildemente (i.e., sabendo que tenho tanto ainda para aprender), sem ter medo de o mostrar, seja a amigos ou a desconhecidos.

Alegra-me, por fim, saber que — apesar dessa conclusão — se mantém intacta a imaginação de gestos secretos, do pensar com mãos e tintas e barro.